domingo, 29 de junho de 2008

Livewire™ Dave Mustaine Model


Certo, eu tô com 27 anos de idade e 10 deles fuçando eletrônica de instrumentos, mas isso não me isenta de ter minhas preferências, vícios e preconceitos. As preferências eu cultivo com carinho, me ajudam e quase sempre são construtivas. Os vícios aparecem como efeitos colaterais das preferências e podem até ajudar, mas podem impedir que eu construa coisas novas. Os preconceitos podem ser efeitos colaterais dos vícios e muitas vezes são a razão da gente virar um velho chato e rabugento.

Meu preconceito com captação ativa vem de ouvir todo mundo que a usa e não gostar do som – com a honrosa exceção do David Gilmour. EMG acabou sendo a referência em captação ativa no mundo todo. Reconheço e aplaudo de pé todas as suas vantagens dos ativos: ruído baixíssimo, baixa impedância (que permite o uso de cabos longos ou pedais sem bypass total) e a não necessidade do aterramento da ponte (que te livra de eventuais choques no caso de algum vazamento de corrente ou curto-circuito no equipamento). Captadores ativos teriam impedido o horroroso acidente com um guitarrista fortalezense chamado Davi Fernades, que é meu cliente. Num show em Teresina ocorreu uma descarga elétrica no equipamento dele, talvez causada com um curto. Ele estava segurando a guitarra encostou a outra mão no amplificador. Ele estava aterrado pelas cordas e o choque foi grande que ele fraturou uma vértebra.

Zakk é o cara da moda, então eu vivo instalando os EMG 81 e 85 em guitarras aqui. Eu reconheço que o timbre é adequado pra metal extremo e eles têm um ótimo ataque, mas aqueles médios atarracados são complicados de eu engolir. Já tocaram nos EMG ativos de guitarra? Nunca acharam que a guitarra está “gripada” com aqueles médios saindo como se a guitarra estivesse com o nariz entupido? Aí vem a Duncan e lança a nova geração dos seus captadores ativos, dentre os quais o Livewire Mustaine. Eles juram pelo espírito do finado Seth Lover que eles soam como se fossem versões ativas do JB e o Jazz Model. E agora, o que eu devia fazer? Parei, pensei, filosofei, me enchi de coragem, tirei o escorpião do bolso e comprei os malditos.

Se a proposta era ser uma versão ativa do kit Hot Rodded, imaginei que o ideal era instalar os captadores numa guitarra macia e minha Horizon foi escolhida. Só que dando uma olhada no catálogo da Duncan eu vi que os picos de ressonância do kit Mustaine não casavam com o kit Hot Rodded – aliás, não passavam nem perto. Os Mustaine tinham picos em faixas mais baixas que o kit Hot Rodded. Fiquei encucado, mas mesmo assim resolvi esperar os captadores chegarem pra instalar na ESP.


O visual do captador é lindíssimo. Não tem aquela capa feiosa dos EMG e antigos Livewire. Ele tem uma capa metálica cor de grafite com a assinatura do Dave Mustaine estampada e por trás é totalmente selado com resina epóxi. Minha ESP ficou tão linda com eles que eles só saíram dela por causa do timbre: o que estava no catálogo era verdadeiro. Pro meu gosto pessoal os captadores não casaram legal com uma guitarra muito macia. Na Horizon eles não atingiram os picos de agudos que eu gosto pra atravessar o som da banda. Eu nem sonharia em colocar esses captadores numa Gibson.


Mas na minha Teleblaster de cedro aguda feito um curió os Mustaine apareceram e o careca que vos escreve teve orgasmos timbrísticos. Vamos começar pelo óbvio: eles têm um ganho um pouquinho maior que o JB e o Jazz Model, mas nenhuma diferença gritante em termos de ganho. Numa guitarra rachadiça, aquele brilho que faltou na ESP apareceu e o ataque dos agudos ficou bem evidente. Outra coisa que ficou misteriosamente evidente foi o DNA Duncan – os agudos crocantes tipo “mamãe, eu quero ser um captador Gibson!”, os médios amplos, o ataque marrento e até a leve falta de articulação do JB. Todo mundo sabe que pra mim o JB é a drag queen dos captadores (exagerado, caricato e espalhafatoso). No entanto, faça um exercício de imaginação e tente visualizar o JB depois de 3 anos no Exército. O Mustaine de ponte é isso. Curto, grosso, sem frescura, cabelo cortado com máquina, limpo e o mais surpreendente de tudo: não parece em nada com outros captadores ativos. Nada de som processado aqui. Quando eu ouço os EMG eu sei que são EMG e ativos. Mas se eu fizesse o teste cego com o os Mustaine eu jamais diria que é um captador ativo.


O de braço é satisfatório: moderado, agradável e articulado. Faz seu papel dignamente, mas faltou um pouco mais de brilho e informação de médio-agudos. Esse sim deveria ter um pouco mais do caráter do Jazz Model, que é um poço de cristalinidade e brilho. O Mustaine de braço não vai fazer feio na sua guitarra, mas a impressão que eu tenho é que a Duncan gastou mais tempo dando atenção ao modelo de ponte e não foi tão criteriosa na timbragem das faixas altas do outro.
Eu não vou gastar o meu tempo e o de vocês falando sobre o desempenho do captador em ganho alto – os captadores timbram polidos, poderosos, rugem alto e foram feitos pra um deus do metal que ressurgiu das cinzas. O que me deixou de queixo caído foi o desempenho dos captadores em ganho médio. Eles soaram são consistentes, tão dinâmicos, tão orgânicos e tão delicados que eu fiquei aqui sem entender como é que um captador com proposta metaleira me deu os sons do Jeff Beck do Blow by Blow!!! Nunca em nenhuma guitarra e captador meus me deram um som tão parecido com o de Cause We’ve Ended As Lovers!!! Não é brincadeira. Só vocês instalando pra acreditar. Curiosidade: veja a resenha sobre o JB e descubra quais captadores estavam na tele que o Jeff Beck usou pra gravar Cause We’ve Ended As Lovers.

Baixa atração magnética, baixa impedância e sem precisar de aterramento de cordas (as vantagens dos captadores ativos não fazem mal a ninguém, concordam?). Mas os Mustaine não têm sons de robô, têm visual deslumbrante e sons com DNA Duncan muito bons. A Duncan abriu a porteira pra fazer outros Livewire com sons mais orgânicos e talvez um par com ganho moderado. Por hora os Blackouts estão por aí devastando o planeta, mas soam mais próximos dos EMG. Enquanto isso os Mustaine são muito bons e não soam processados. Eles parecem apenas com ótimos Seymour Duncan clássicos. E isso é muito bom.

- Preferi usá-lo para: sons de ganho muito alto sem ruídos e timbres com ganho médio como os de Jeff Beck da era Wired e Blow by BLow.

- O que me passa pela cabeça quando lembro dos timbres que ouvi: que atirar nos sons do Megadeth e acertar em Cause We've Ended as Lovers é uma infelicidade muito feliz.

sexta-feira, 20 de junho de 2008

Sobre a parceria com a Sérgio Rosar Pickups

Muito bem, cá estou de volta às atividades e começo dizendo que estou muito feliz pela repercussão que o blog está tendo. Ando recebendo e-mails e recados no Orkut aos montes. Essa é a primeira coisa boa. A segunda é que através do blog eu fui contatado por um jovem senhor de Florianópolis chamado Sérgio Rosar. Ele é um construtor de captadores. Nesse momento a Rosar Pickups já conta com uma linha completa e à venda de single coils, humbuckers em tamanho single (que ele chamou de Dual Blade) e humbuckers de quatro bobinas (chamado de Quad Blade). O Sérgio me pediu para ajudá-lo a desenvolver sua linha de humbuckers e já estamos trabalhando feito dois malucos há quase dois meses. Até o momento em que escrevo esse texto eu já recebi 21 captadores Rosar que estão espalhados em “trocentas” guitarras minhas e em guitarras de duas pessoas de minha confiança para testes.

Amigos, dentre os Dual Blade, há dois modelos que estão fadados a ser um sucesso: o Twin Vintage (uma versão mini de um PAF, perfeito pro braço) e o Extreme Hot (captador de ponte bem agressivo). Com esses dois captadores o Sérgio conseguiu uma proeza: capturar tudo que eu gosto nos humbuckers em tamano de single e eliminar as deficiências. Eles são incríveis! Eu não tive nenhuma participação no desenvolvimento desses captadores. O mérito é todo do Sérgio.

Dentre os que estão em guitarras minhas há alguns que já estão definidos e outros que estão em desenvolvimento. Temos nesse exato instante três humbuckers de alto ganho pra ponte. Um deles o Sérgio chamou de Punchbucker. É o mais agressivo da turma e já tem seu companheiro pra braço definido. Fantástico pra quem desce a afinação. O segundo chama-se Rock King. Este não vai ter modelo de braço, pois achamos que a maioria das pessoas vai querer casá-lo com algum PAF no braço. Atenção, fritadores! Vocês vão gostar do terceiro! É o meu preferido até o momento e eu o batizei de Supershred. Este já tem seu modelo de ponte definido, fritado, testado e aprovado pelo careca que vos escreve. O Supershred está com seu parceiro de braço no forno e será definido em breve (tenho 3 protótipos em teste e um deles será o ponto de partida). Existe a possibilidade de um quarto captador entrar em cena, mas será um projeto futuro e será surpresa pra vocês.

Há dois PAFs em andamento. O primeiro deles é uma recriação do primeiro PAF, o de 1955, em que vocês terão muita dinâmica, muita suavidade, faixa de agudos extremamente detalhada e um som muito musical. Ele usará alnico 5, mas com um sistema de suavização do campo magnético, que torna o captador muito mais sensível à sua pegada e aumenta muito o sustain da sua guitarra. Assim como os PAFs de 55, esse captador não será parafinado. O segundo será uma versão com mesma quantidade de ganho, mas será parafinado, com menos detalhes de agudos e com o som gordo que todo mundo tá careca de ouvir dos PAF do fim dos anos 50. Ambos terão versões de braço e ponte. Nesse momento eu estou com 5 versões desses PAFs. Eu estou instigando o Rosar a fazer uma versão de um Hot PAF para a ponte depois que definirmos toda a linha.

Garanto a vocês que eu não estaria me envolvendo com um projeto se não fosse pra ser grande. Sérgio Rosar não está trabalhando pra criar uma linha “acessível” de captadores. Os produtos que eu tenho instalado nas minhas guitarras são, com a mais absoluta certeza, concorrentes diretos de Seymour, Dimarzio, Tom Anderson e Gibson, com a vantagem de ser mais baratos. Além disso, o Sérgio oferece um serviço de Custom Shop. Você quer um Tone Zone com menos médios? O Rosar faz.

Sérgio Rosar é um cara que me impressiona a cada dia. Ele é cheio de entusiasmo, dedicação ele escuta todas as minhas observações com atenção, mesmo que às vezes não concorde com todas elas. Ele me procurou querendo um parceiro de trabalho com o mesmo entusiasmo dele e encontrou. Lá se vão quase dois meses de trabalho sem parar – até aos domingos eu venho até a loja pra instalar captador em guitarra minha. Cada um de nós dois está fazendo sua parte com muito empenho e os frutos disso já podem ser observados e adquiridos por vocês. Vocês podem visitar o site www.sergiorosar.com e verificar os modelos disponíveis, embora os novos humbuckers ainda não estejam lá. Para qualquer esclarecimento vocês podem entrar em contato comigo ou com o Sérgio.

Portanto, eis o Zona do Humbucker e o seu fundador deixando de colaborar com vocês apenas virtualmente pra colaborar objetivamente – graças, é claro, ao trabalho de um pequeno gênio de Florianópolis. Esse é só o começo de um grande trabalho.


quinta-feira, 24 de abril de 2008

Aos companheiros de cordas que acompanham meu blog:

Um guitarrista chamado Raziel (um cara gente boa e íntegro, de quem eu até já comprei um par de captadores) fez o seguinte comentário no post passado:

Prezado Rafael, você escreve reviews para os guitarristas, ou para alguma revista? Porque pra vc tudo é bom! Tudo é "usável", assim fica difícil amigo. Parece review de Guitar Player, tudo uma maravilha...
É só minha opinião, os outros reviews eu li todos, este eu nem vou ler, porque certamente vai ser a mesma coisa, ou é bom pra uso X ou pra uso Y...

Bom, eu realmente adoraria escrever testes e esclarecer tópicos importantes sobre eletrônica de guitarras em alguma revista do ramo por dois motivos: o primeiro deles é que depois de 10 anos batendo cabeça com isso eu me sinto gabaritado para tanto - não custa nada lembrar o tanto de gente que tem por aí escrevendo besteira em coluna de revista e até mesmo publicando “guias de captadores” entupidos de informações incorretas. O segundo motivo é que eu vejo todo santo dia nos fóruns da net e no balcão da loja pela qual sou responsável um monte de gente desinformada comprando gato por lebre e eu gostaria muito de oferecer a essas pessoas um meio simples, fácil, barato e até mesmo divertido de obter informações sobre nosso instrumento.

É por esses dois motivos que eu adoraria escrever uma coluna numa revista. Acontece que é por esses mesmos dois motivos que eu me autorizo a escrever nesse blog. Se eu não me sentisse capaz de contemplar um deles dois eu jamais teria feito o Zona do Humbucker.

O outro ponto que eu gostaria de comentar acerca do que foi dito é muito óbvio. É claro como a água que todos os timbres são utilizáveis! Não existe som ruim. Existe timbre mal empregado. Imagine que você toca numa banda de baile. Imagine você tem à sua disposição uma elegante Les Paul - com seu timbre redondo e polido - e tem uma B.C. Rich Warlock. Qual das duas você escolheria? É óbvio que a Warlock é uma boa guitarra, mas ela se presta a uma outra coisa. Ou será que você imagina ir ao um show do Sepultura e ver o Andreas com uma 335?

O fato é que eu evito ao máximo fazer comentários tipo “esse captador tem médios muito feios”. Ora, o que raio é um médio feio? Eu não uso nenhum aparelho de medir qualidade de captador. Não existe um “belezômetro” nem um “feiômetro”. Sempre que eu vou fazer algum comentário baseado no meu gosto pessoal eu faço questão que isso fique bem claro e que não sirva de referência pra ninguém.

Eu nunca quis fazer isso no blog, mas vou confessar: eu não usaria um monte de captadores que na verdade são bem famosos! Quer um exemplo? O JB não teria lugar em nenhuma guitarra minha, tanto que vendi 2 dos 3 da minha coleção no mês passado. Ora, mas e daí? 90% dos seres guitarrísticos do universo adoram esse captador! Eu mesmo adoro escutar Michael Schenker e o Marty Friedman - que usaram o JB por décadas! Eu vendi meu PAF Pro, pois para o meu gosto pessoal ele não tem brilho o suficiente pra ir pro braço e é muito desarticulado pra ir pra ponte. E tem um monte de gente por aí que tem o Pro e é muito satisfeito com ele. O que é que você quer que eu faça? Quer que eu chame todo mundo de surdo? Quer que eu diga que todo mundo que pensa diferente de mim tem mal gosto? Eu não posso fazer isso! Como guitarrista, como luthier e como gerente de loja eu tenho mais é que ficar feliz pelos meus colegas de instrumento estarem satisfeitos! Pra mim é só isso que importa.

A última coisa que eu quero dizer sobre seu comentário é que você não é obrigado a ler nenhum dos posts. Se o meu estilo de fazer textos não lhe agrada é um direito seu e você deve exercê-lo se lhe for conveniente. Apesar disso eu tenho muito orgulho em dizer que esse blog recebe quase 100 visitas por dia na semana em que eu publico textos - e na ocasião do texto sobre o JB ele recebeu mais de 260 num único dia. É por causa desse blog que hoje eu tenho um monte de companheiros que me mandam e-mails, recados no orkut, comentários aqui no blog e esses mesmos companheiros me compram e vendem captadores e outras peças. Isso me dá muito estímulo pra continuar escrevendo apesar da minha falta de tempo – afinal eu sou luthier, cuido da loja o dia inteiro, atendo na clínica durante a noite (pra quem não sabe: eu sou psicólogo) e ainda tenho que arranjar tempo pra namorar, estudar e lutar jiu-jitsu!


Dito isso, esbravejo: longa vida à Zona!!!

quarta-feira, 23 de abril de 2008

Dimarzio Fast Track 1 (DP181)



Até um tempo atrás eu não dava nenhuma credibilidade aos humbuckers em tamanho single. Parte dessa descrença veio de experiências ruins que tive com os humbuckers em tamanho single da Seymour (os JB Jr. e Litlle 59 aí da vida). Tanto que demorei anos pra me interessar em testar os Dimarzio.

A idéia de fazer um captador com duas lâminas é mais velha do que andar pra frente, mas no caso desse tipo de humbuckers em tamanho de single da Seymour e Dimarzio há uma grande vantagem: como os imãs são pequenos, a atração magnética é reduzida e as cordas vibram com mais naturalidade. Isso melhora a entonação e sustain da sua guitarra. Além de tudo isso esses captadores deixam as guitarras com um aspecto mais moderno.

Eu ouvi o som do Fast Track 1 pela primeira vez numa guitarra de um cliente (uma lindíssima Washburn com configuração HSS com o FT1 no braço) que veio trazê-la pra regulagem. Olhei pra guitarra e pensei: “mais um dos pickups com som de plástico”. Mas essa impressão durou até o momento em que o cara plugou a guitarra e tocou pra me mostrar o quanto a guitarra estava mal regulada. O captador de braço soava como se fosse o single coil mais gordo e cheio de punch do mundo. Olhei pra ele com cara de idiota e perguntei que captador era aquele e ele disse que era o FT1. E olha que a Washburn parecia que tinha sido regulada por um açougueiro e as cordas estavam muito velhas.

No outro dia eu olhei o catálogo da Dimazio e não compreendi bem a proposta do FT1: o catálogo dizia que ele soava como “um single com mais músculos”. O problema é que eu ouvia os sons do Vinnie Moore e não entendi como um captador com pouco médio pode me parecer mais “musculoso”. E como ele usava todo aquele ganho sem que o captador engasgasse como os singles costumam fazer? Ainda mais no braço!

De qualquer maneira eu comprei um o quanto antes e testei nas minhas guitarras. Consegui aquele milagre daquela Washburn! A primeira coisa que me ocorreu ao ouvir os sons é que, sim, ele soa um pouco mais processado e artificial do que um Texas Special da vida, por exemplo. Mas ora, isso não é um problema. Se alguém resolve colocar um FT1 na guitarra é justamente por querer uma coisa diferente de sons “normais” de captadores vintage, concorda? Mas veja: essa característica é muito discreta, não é som de plástico como eu achava antes de conhecer o captador.

Ele tem graves mais magros que o normal pra não engasgar nas cordas graves da sua guitarra. Ele tem brilho o suficiente pra não desaparecer no meio da sua banda. Os médios dele parecem ter sido mais sequinhos de propósito: você pode estar usando distorção num nível de Slayer que o som de captador do braço sempre vai parecer mais limpo e sem gordura demais de médios pra embolar. Quando eu toquei com muito ganho eu entendi em pouco tempo as razões que levam os fritadores a ter um caso de amor com o FT1, mesmo ele não sendo um captador de ganho alto: o fato dos médios e graves serem mais sequinhos fazem com que o som fique claro e não apastelado e embolado. O ataque permanece sempre focado e o punch da palhetada é sempre bem nítido antes da nota começar a soar, os graves são muito consistentes e não são esponjosos (tá vendo como só como soar um pouco processado não é tão ruim?).

E você quer saber as melhores partes? Primeiro: diferente dos humbuckers em tamanho de single de ganho mais alto (Tone Zone S, Super Distortion S, JB Jr. e outros) o FT1 responde bem a dinâmicas de palhetadas e botão de volume. Segundo: timbra magnificamente com níveis médios e baixos de ganho. Terceiro: ele é tão transparente que o som da sua guitarra aparece claramente!

Se você gosta do som da sua strato mas quer um captador de braço mais ofensivo, experimente o FT1. Você poderá aumentar o ganho do seu amp mas o som de single continuará lá quando você usar o canal limpo ou recuar o volume da sua guitarra. Infelizmente isso não acontece com os outros captadores citados.

Testei o FT1 em um pourrilhão de guitarras e em absolutamente nenhuma ele soou mal. Tenha você um bom e velho PAF na ponte ou um Invader (pra citar dois captadores muito diferentes) e quer um captador de braço que te leva a muitas áreas de timbre diferentes sem sacrificar o som natural da sua guitarra, você deve testar um FT1.

Só mais uma observação: onde ele soou melhor foi no braço da Soraia, a minha famosa telecaster que pegou fogo e que timbra insanamente aguda e rachadiça. Coloquei fotos dela nesse post. Essa tele tem um Super Distortion T na ponte.

- Preferi usá-lo para: bombar stratos sem ter que trocar o escudo para colocar um humbucker normal.

- O que me passa pela cabeça quando lembro dos timbres que ouvi: que palhetadores compulsivos como eu podem ter no FT1 o seu melhor amigo pra posição do braço.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

Dimarzio Tone Zone (DP 155)


Muitos captadores que eu conheço foram criados com a proposta de timbrar delicados e detalhados – pra mim o Duncan Seth Lover e a linha Area da Dimarzio são exemplos disso. Eles foram feitos para guitarras equilibradas. Qualquer excesso ou falta de freqüências oferecidas pela guitarra fica claramente evidenciada no resultado final do timbre.

Há um outro tipo de captadores: os casca-grossa. O Tone Zone é um deles. Um verdadeiro brutamontes. Não há nada delicado nele. Ele tem muita saída, muitos graves, muitos médio-graves e muitos médios. Isso não significa que ele seja um captador sem brilho. O fato é que a Dimarzio ofereceu esse captador para guitarristas que tenham instrumentos com excesso de brilho. Ora, imagine uma guitarra com corpo de maple ou qualquer outra madeira vidrenta. Agora imagine um braço de maple ou marfim e com escala de maple, marfim ou ébano. Agora o golpe fatal: imagine que essa guitarra tem uma Floyd Rose. Amigo, você vai ter aí um monstro tão cheio de agudos e com um ataque tão cortante que provavelmente seus pobres ouvidinhos vão pedir clemência.

Eu já instalei alguns TZ em Ibanez RG de clientes e tive resultados muito bons. Algumas delas eram guitarras muito cortantes e o TZ ajuda a arredondar os agudos por meio de uma injeção de anabolizantes de freqüências médias pra baixo. As cordas graves soam bem gordas e as notas mais agudas não ficam doendo nos seus ouvidos. Power chords na região média da guitarra – como o batido riff de Smoke on the Water – ficam tão parrudos e com uma autoridade tão grande que você fica se perguntando de onde saíram esses médios todos. É como um cachorro bulldog: você fica se perguntando como uma porcaria daquele tamanho consegue ser tão marrento e impor tanta autoridade.

De todos os captadores que eu já testei até hoje o TZ é o que melhor timbra com ligações alternativas. Ele timbra engraçado no modo single – um tipo de caricatura interessante de um single verdadeiro – e é ótimo no modo em paralelo. Nessa ligação ele perde um pouco de ganho e adquire um brilho bem legal. Ou seja: fica ótimo para momentos em que você não quer tanta infrmação de freqüências baixas e nem o ganho enorme do modo em série. Eu cheguei a instalar o meu TZ na minha Horizon, mas os resultados não foram legais pq o corpo dela é de swamp ash, que já não tem lá muito brilho. Mas ficou melhor no modo em paralelo.

Uma característica bem legal do TZ é que você vai recorrer menos ao captador do braço para palhetadas malmsteeneanas na região aguda da guitarra. Ele define bem as palhetadas velozes sem engasgar os agudos como a maioria dos captadores de ponte fazem.

Nada impede que você o coloque em guitarras de projeto Gibson, mas saiba que vai haver pobreza nas freqüências altas. Se você quer muito ganho, se a sua guitarra timbra muito rachadiça e recuar o botão de tone não está te satisfazendo, tente o TZ. É numa guitarra dessas que ele cabe perfeitamente. Esse captador é bom demais.


- Preferi usá-lo para: domar guitarras excessivamente agudas, riffs bem gordos e abusados, bem como palhetadas velozes em apelar para o captador do braço.
- O que me passa pela cabeça quando lembro dos timbres que ouvi: que o bom de ser guitarrista é que ser marrento e abusado são características louváveis.

segunda-feira, 5 de novembro de 2007

HH777 - Hellbucker e Realbucker

Amigos,

Hoje a resenha é especial. É o teste de um captador feito no Brasil com grande qualidade e desenvolvido pelo Henry Ho em parceria com a Malagoli. É a primeira vez que tive a oportunidade de trocar idéias com o criador de um modelo de humbucker – e isso é uma honra, ainda mais se eu considerar que nunca vou poder conversar com o Seth Lover e que dificilmente vou conhecer o Bill Lawrence, Larry Dimarzio ou Seymour Duncan. Segue o texto e, em seguida, alguns comentários feitos pelo Henry sobre o meu texto.

Estou aqui na frente do meu computador vendo DVDs de MMA (joga MMA no Google e descubra o que é) e no meu colo há uma strato projetada por mim. O corpo dela é de freijó com um tampo de imbuia. O braço é de maple som escala de jacarandá. A ponte é a minha preferida: Kahler. Tem outro brinquedo legal nessa guitarra: o Fernandes Sustainer. Sabe outra coisa legal que está instalada nessa guitarra? Um captador HH777. Nada mal pra um aprendiz de guitarrista e aprendiz de jiu-jitsu ficar rolando o rock enquanto os caras lutam, ainda mais se há uma maquininha de rock’n roll na guitarra como o HH777.

Eu fiquei feliz quando soube que Henry Ho estava lançando seu modelo de captador, pois é óbvio que um grande produto estaria sendo colocado no mercado. Henry é um cara meticuloso, bom guitarrista e ótimo luthier - além de ser um cara muito legal. Um captador com sua assinatura só podia ser um grande produto.

Algumas coisas relacionadas ao gosto pessoal de Henry não são segredo pra gente: ele parece preferir stratos, gosta de rock e metal clássico, fã declarado do George Lynch e parece ter preferência por captadores Seymour – e como eu sempre achei que os modelos clássicos da Seymour têm um DNA Gibson, era natural que Henry usasse alguns pickups Seymour e Gibson como referências.

As primeiras coisas que achei muito legais foram a embalagem e o visual do captador. Há seis pólos de parafuso tipo fenda num lado e seis pólos de parafuso Allen. Claro, se você conhecesse captadores, verá que a Seymour (olha ela aí) tem um modelo com esse aspecto. Um doce pra quem adivinhar! É o Screamin’ Demon, captador signature do George Lynch.

Eu adoro o timbre do Screamin’, mas acho que ele grita alto demais nas freqüências mais agudas e ele tem pouco ganho pro meu gosto pessoal. Mas foi exatamente aí que Henry e os seus parceiros da Malagoli tiveram a lucidez e gentileza de me ajudar: criaram o Hellbucker, um captador cujo ganho se estrutura de maneira muito parecida com um Seymour clássico, que não é exagerado em nenhuma freqüência, com quantidade de ganho semelhante a um JB, articulado e preciso, com um visual matador e o mais impressionante: um preço imbatível.

Experimentei os meus em várias guitarras, mas o de ponte soou melhor na citada strato. É claro que você pode rolar Stones ou coisas do tipo, mas o captador implora por heavy metal e rock instrumental agressivo. Bases pesadas feito pedra ou riffs velozes tipo Megadeth vão sair com todo gás e solos “satrianísticos” com wah-wah soam vivos e atravessam o som da sua banda facilmente. Esse captador soa equilibrado nessa minha strato, mas eu evitaria instalá-lo numa guitarra aguda e rachadiça demais.

Até aqui falamos do modelo de ponte. O de braço não me inspirou tanto. Seu nome é Realbucker. Ele é exatamente o contrário do que eu tenho procurado em captadores de braço. O HH777 de braço tem uma quantidade de ganho razoável, mas soa gordo demais pro meu gosto, com pouco brilho e clareza. Todo dia eu sou sabatinado no balcão da minha loja por guitarristas que querem instalar a velha combinação JB + 59 e vocês lembram do que eu penso do JB (vejam a resenha do JB). O HH777 de braço me faz lembrar o 59 e isso é um problema pra mim. O meu raciocínio é: de que adianta ter um captador de ponte agressivo e com boa dose de ardência se esse som cortante fica apagado quando usamos o captador do braço? Na minha opinião fica difícil usar esses dois captadores juntos, pois espero que um captador de braço apenas me ajude a articular as notas de maneira diferente e não que faça um corte tão abrupto de brilho - e esse é o exato problema de se usar o JB e o 59 na mesma guitarra.

Isso é um defeito? Não. É apenas uma particularidade dos HH777 e esses captadores merecem que você dê uma chance a eles. Eu recomendo o modelo de ponte em guitarras mais mornas (ele deve soar matador numa Les Paul!) e usaria o de braço numa guitarra bem brilhante, pra equilibrar um pouco sua falta de brilho.

É um problema que Henry tenha utilizado os Seymour como referência? Eu sinceramente acho que não. Ora, você precisa de um Screamin’ Demon com mais ganho e menos agudos cortantes? Precisa de um JB sem aquele paredão de médios? Pois Henry e a Malagoli nos deram esse captador e seu nome é Hellbucker – com qualidade incrível e por um preço campeão.

Um pedido a Henry e seus parceiros da Malagoli: eu ficaria muito, muito feliz se vocês tivessem mais do que um ou dois modelos de captador. Seria maravilhoso se vocês tivessem uma linha diversificada de HH777 – sugiro um modelo de ponte ainda mais agressivo que o Hellbucker, talvez com imã cerâmico, além de um modelo de braço mais brilhante e transparente. Quanto mais modelos tiverem, maior o número de pessoas que poderão ficar satisfeitas com seus produtos – portanto, mais vendas. Mas eu insisto: Henry e a Malagoli merecem muito crédito por oferecerem um produto de qualidade tão alta.

Henry comenta:

A idéia era fazer um captador de braço próximo ao 59 Model (SH-1) da Seymour Duncan e 57 Classic da Gibson. Para a posição do braço, minha preferência sempre foi para fabricantes como Tom Holmes e Lollar. O Model 59 da Seymour para mim soa articulado mas falta uma ponta de ganho. Já o Gibson 57 Classic é um captador muito legal, mas excede em médios e graves. O Realbucker utiliza o Alnico 5, evitamos o Alnico 2 para obter mais ganho e produzir um agudo mais atrevido.

Em termos de ganho, o Realbucker tem um incremento adicional que proporciona mais ataque e menos compressão. Neste quesito, o pickup possui similaridades com o Virtual Hot PAF da Dimarzio. Na questão do timbre, o Realbucker é mais agudo que o Gibson 57 Classic. Talvez mais próximo ao Gibson Burstbucker 2. No que diz respeito ao 59 Model, o Realbucker é articulado tal qual o referido, porém apresenta mais presença.

O HH777 Hellbucker (ponte) não discrimina muito o tipo de construção na questão da interação com os elementos do instrumento. Seja uma Les Paul ou uma Stratocaster - é perfeitamente possível notar as características de cada guitarra adicionadas às características tonais do pickup. Já o Realbucker, a questão interativa é mais perceptível porque se trata de um captador de braço posicionado numa região de maior vibração das cordas e próxima a escala do instrumento.

É possível notar diferenças entre uma PRS e uma Les Paul, assim como numa stratocaster tradicional como numa guitarra tipo Jackson ou Ibanez. Muito mais ainda entre uma Stratocaster e uma Les Paul. Particularmente, gosto do Realbucker nas Stratocasters, mas nas Les Paul ainda sobram graves.

quarta-feira, 31 de outubro de 2007

Se o alemão aí falou...















E sem os humbuckers, como faríamos o rock sem ruídos?


A caricatura veio do site do grande Bill Lawrence.